O estresse não é mais exclusivo dos adultos!

Estressadas, esgotadas, exaustas. As crianças de hoje estão muito mais que cansadas. Transferimos a epidemia do estresse para elas. As crianças estão perdendo, coletivamente, o tempo para brincar. E perder a capacidade de brincar na infância não é pouca coisa, porque na brincadeira, na criatividade e no desenvolvimento da fantasia estão as outras capacidades necessárias para a realização no futuro. Hoje em dia, as crianças não brincam porque não têm tempo, coisa que é ridícula e antinatural, pois a criatura humana foi desenhada para brincar o tempo todo, e assim ir aprendendo tudo aquilo que lhe servirá para a constituição do seu ser.

Hoje valorizamos as atividades nas quais, supostamente, as crianças aprendem, e relegamos a um segundo plano as experiências cotidianas espontâneas onde tudo de que a criança precisa é de um adulto que a olhe com amor. Se as crianças não precisam “fazer quase nada, salvo o que lhes ocorre”, e, em troca, são obrigadas a responder às expectativas dos adultos, fica claro que qualquer atividade que realizam representará um grande esforço. Se é esforço, acabou a brincadeira. O fato de uma criança se dedicar ao piano, ao inglês, ao futebol, à natação, ao xadrez, ao balé, à patinação, à pintura ou às artes marciais pode ser maravilhoso, desde que não seja em detrimento do seu tempo de lazer.

A maioria das crianças vai todos os dias à escola e, após a aula, se envolve em várias atividades extracurriculares. Deveríamos avaliar se lhe resta tempo para as brincadeiras criativas, para ficar sozinha, para encontrar os amigos, para pensar ou se conectar com seu ser interior. Se, ao contrário dos adultos, ela não tem o direito de negar as atividades, se diz que a escola é um lugar absurdo, se resiste em ir às aulas de natação recomendadas pelo médico porque sofre de asma, se chora porque não quer acordar toda manhã (pois já sabe que encontrará um deserto emocional), se está sem vontade porque quase nada do que faz durante o dia lhe dá prazer, se está perdida em si mesma, se responde automaticamente às demandas das pessoas adultas, se o mundo está dividido entre o que é correto e o que não é, então a criança está sofrendo de estresse. Viver com estresse é viver fora do próprio tempo, fora do ritmo pessoal, fora do significado profundo que uma ação adquire para cada indivíduo, um acontecimento, um vínculo, uma decisão ou uma escolha. O estresse surge quando a única opção é observar de fora a nossa própria vida, porque já não somos protagonistas dela, mas vítimas de decisões alheias. Viver com estresse é ter perdido o rumo.

Por isso, talvez tenha chegado o momento oportuno de parar para repensar a vida que estamos impondo aos nossos filhos. Devemos observar se são felizes, se estão saudáveis. Pensar se nos pediram para fazer as atividades que praticam todos os dias. Examinar os motivos que nos levaram a escolher as escolas, os esportes, os professores ou as tarefas que lhes impomos. Observar o panorama e ter a humildade de lhes perguntar o que é que mais gostariam de fazer. Tolerar ouvir aquilo que as crianças nos vão responder. Estar dispostos a considerar mudanças, desde que acreditemos que serão a favor do bem-estar delas. Defender a infância dos nossos filhos. Levar em conta quais são os momentos em que riem às gargalhadas, se divertem ou se mostram espontâneos. Dar valor aos sonhos deles. Procurar ajuda para que possam tocar o céu com as mãos. Ser capazes de desfrutar pequenos momentos de satisfação, pelo simples fato de vê-los felizes. Parar por alguns instantes e ficar em casa sem fazer nada, e cuidar da angústia que esta coisa tão simples gera.

O estresse das crianças não se resolve com medicamentos. Enquanto forem crianças, os pais terão em suas mãos a possibilidade de lhes oferecer uma vida pautada de acordo com as necessidades particulares e originais de cada filho.

Texto retirado na íntegra do livro “Mães Visíveis, Mulheres Invisíveis” da Laura Gutman.

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