O que é sono normal de criança? Parte 3 (final)

 

Tradução: Gabriela de O. M. da Silva

PARTE 3: COMPORTAMENTO NORMAL DOS PAIS E O MOTIVO DE NÃO NÃO FAZER MAL À CRIANÇA

 “Meu filho ainda dorme na nossa cama.”

Vários pais que dormem com suas crianças escutam comentários como “Seu filho nunca vai sair do seu quarto se você não tirá-lo” ou “Como fica a sua vida sexual?”. Os pais começam a se questionar se estão fazendo a coisa certa pelos filhos ou se vão acabar tendo um adolescente de 16 anos que ainda pede para subir na cama de  mamãe e papai toda noite. Primeiramente, vamos falar a respeito do momento em que a criança deixa a cama. Tenha certeza que seu filho não vai te arrastar para o dormitório da faculdade para conseguir dormir, mesmo se você não forçá-lo agora a sair da sua cama.

A idade em que a criança está pronta para dormir em seu próprio quarto varia bastante e compartilhar a cama é comum no mundo todo. Com certeza, os índices de cama compartilhada nos países nórdicos e asiáticos são muito maiores que os do Canadá ou Estados Unidos (Mindell, Sadeh, Wiegand, How, & Goh, 2010; Nelson & Taylor, 2001; Welles-Nystrom, 2005; para uma revisão, veja Cassels, 2013).  Pais entrevistados por um dos autores a respeito da idade em que a criança começou a transferência para outro quarto deram respostas em torno dos 18 meses até os 10 anos.

Alguns fatores que influenciam a idade de transição incluem: ter um irmão em outro quarto (assim é possível dividi-lo com outra criança), a presença de um novo bebê na cama (e a necessidade de ter segurança para o bebê novinho e sono ininterrupto para o mais velho), e as necessidades de desenvolvimento da própria criança. Ninguém deve dizer a uma família que precisam parar de compartilhar a cama, se ainda funciona bem para eles. Importante dizer que a pesquisa sobre quarto compartilhado estendido não encontrou nenhum atraso social, emocional ou cognitivo nas crianças que compartilhavam a cama, em comparação àquelas que foram logo cedo postas para dormir em seus próprios quartos. (e.g., Abel, Park, Tipene-Leach, Finau, & Lennan, 2001; Barajas, Martin, Brooks-Gunn, & Hale, 2011; Keller & Goldberg, 2004; Okami, Weisner, & Olmstead, 2002).

A segunda questão que é frequentemente posta, diz respeito à relação marital quando se tem uma cama familiar. Novas pesquisas que observaram cama compartilhada e satisfação sexual descobriram que não há influência negativa sobre a relação marido e mulher quando a cama familiar é feita de maneira intencional (Messmer, Miller, & Yu, 2012).  Quando a cama compartilhada é uma resposta aos problemas de sono da criança, os pais podem citar que há maior nível de estresse na relação, mas parece que essa questão se relaciona aos problemas de sono, e não à cama familiar em si. Quanto à intimidade, pais de crianças que fazem cama ou quarto compartilhado sempre encontram formas criativas de garantir que seus desejos sejam também supridos. Há excelentes (e engraçados) blogs a respeito, se você estiver precisando de sugestões.

“Meu filho só dorme se estiver mamando.”

A maioria dos pais nos primeiros meses descobre quão fácil um bebê dorme se estiver mamando. Na verdade, amamentar com frequência é o que faz nossos pequenos dormirem. Apesar de muitos não se preocuparem com isso enquanto o bebê é novinho, conforme vão crescendo começam a pensar a respeito. Não ajuda em nada o fato de que dormir enquanto mama ser um dos problemas de sono listados por pesquisadores da área (Melzer & Mindell, 2006) e o fato de que a família e os amigos sempre dizem que você está fazendo mal ao bebê  e que ele ou ela nunca vai aprender a dormir sozinho. Vários “especialistas de sono” recomendam que você não deixe o bebê pegar no sono enquanto mama, por medo de criar um “mau hábito”(Meltzer & Mindell, 2006), recomendando ao invés disso que você acorde o bebê antes de colocá-lo deitado no berço.

Desde que amamentar seu bebê até que ele durma não seja um problema para você, não é preciso se preocupar com isso. Como podemos dizer isso? Primeiro, porque uma criança cansada consegue dormir com ou sem mamar. Apesar de dormir no peito continuar sendo a forma preferida de adormecer da criança (cheia da proximidade e intimidade necessárias para a conexão afetiva), esse não vai ser um passo sempre necessário. Conforme a criança cresce, ela vai começar a adormecer em vários lugares e posições. Crianças novinhas não devem ser forçadas a adormecer sem conforto; elas podem sim precisar de alimento para se sentirem relaxadas e seguras o bastante para então adormecer. Outro fator a lembrar é que todas as crianças vez ou outra choram. Amamentar e acarinhar para dormir oferece conforto a essa criança, uma proximidade que está relacionada a respostas positivas no desenvolvimento. Isso não é uma coisa ruim, é simplesmente oferecer ao seu filho a proximidade que é parte natural do crescimento e paternidade/maternidade.

Se você ainda está em dúvida, tenha certeza que amamentar é uma forma natural de ajudar a criança a dormir e dar apoio ao seu crescimento. Os pais devem saber que o leite materno à noite contêm mais triptofano (um aminoácido que induz ao sono). Triptofano é um precursor da serotonina, um hormônio vital para o funcionamento e desenvolvimento cerebral. Ingerir triptofano nos primeiros anos de vida, leva a uma desenvolvimento de mais receptores de serotonina (Hibberd, Brooke, Carter, Haug, & Harzer, 1981). O leite materno noturno também contém aminoácidos que promovem a síntese da serotonina (Delgado, 2006; Goldman, 1983; Lien, 2003). Serotonina faz o cérebro trabalhar melhor, mantém a pessoa bem-humorada, e ajuda nos ciclos de vigília e sono (Somer, 2009). Então, devido ao triptofano e seus vários efeitos positivos, pode ser bastante importante para as crianças receber o leite materno da noite ou da madrugada por razões que vão além de apenas pegar no sono.

Outra preocupação que surge é que de crianças que dormem no peito (ou mesmo no colo) sempre despertam olhando o mesmo ambiente em que adormeceram. (Anders, Halpern, & Hua, 1992).  Isso pode causar choro quando eles acordam e se encontram em outro ambiente, como o berço por exemplo. [Entre os pais que compartilham a cama, vários comentaram que esses sinais diminuíram conforme os bebês aprenderam a procurar o peito da mãe e abocanhá-lo sozinhos quando acordavam à noite. Apesar dos despertares continuarem sendo grandes nas duplas que compartilhavam o leito (Mosko, Richard, & McKenna, 1997), essa interação natural promove uma forma simples e tranquila de lidar com o bebê ao despertar. Nesses casos, quando as crianças estão realmente prontas, colocá-las deitadas quando estiverem quase adormecidas e deixá-las terminar o processo de dormir por si mesmas, pode ajudar a reduzir os despertares que resultam em chamar pelos pais. Contudo, não se deve esperar que um bebê (ou criança pequena) durma a noite toda, já que eles têm várias necessidades que precisam ser atendidas pelos pais, mesmo durante a noite.

“Meu filho só tira uma soneca quando estamos fora de casa, ou andando, ou no meu colo.”

Não seria legal se nossos bebês e crianças quisessem dormir exatamente no lugar onde nós os colocássemos? Agora sem brincadeiras – seria maravilhoso, mas infelizmente não é dessa forma que os bebês dormem. Já ouvimos falar de mães que reclamam porque precisam dar uma volta fora de casa com o bebê para que ele consiga tirar uma soneca e moram em cidades com nevascas e temperaturas abaixo de zero graus, ou então precisam ficar andando o tempo todo (dentro ou fora de casa), o que significa que a sonecas não são um momento de descanso para a mãe, mas até mesmo desagradáveis.

Interessante é notar, que as situações mais comuns envolvem toque, som ou movimento, três itens abundantes para o bebê durante a vida no útero. Lembre-se que os bebês humanos nascem pelo menos 9 meses antes, quando comparados a outros animais por causa do tamanho de nossa cabeça (se crescessem mais, não conseguiriam passar pelo canal de nascimento; veja Trevathan, 2011), então por pelo menos 9 meses seus corpos esperam ter um “útero externo”. Então é uma surpresa muito grande que fora do útero eles esperem as mesmas coisas para fazê-los adormecer? A respeito do toque, sabemos que a ocitocina desempenha um papel importantíssimo nas sensações de satisfação, segurança e amor, todas as quais influenciam a qualidade do sono (Uvnäs-Moberg, 2003).  Então não é difícil imaginar que as crianças que estão fisicamente perto dos seus cuidadores, experimentando uma descarga de ocitocina, têm muito mais chances de pegar no sono e continuar dormindo.

Um segundo fator é o som -mais precisamente as batidas do coração do cuidador, um som que é altamente familiar ao bebê desde o tempo no útero. Quando é a mãe que segura o bebê, suas batidas do coração, voz, e respiração, pode oferecer um tipo de ruído branco que ajuda a se sentir seguro e continuar dormindo, apesar dos mesmos efeitos poderem acontecer quando outros cuidadores seguram o bebê no colo também. quando isso não for possível, o uso de um aparelho que produza ruído branco pode bloquear alguns dos sons da vida cotidiana que podem assustar o bebê, com isso produzindo um som de fundo que pode ajudar no sono. Esses sons tem sido introduzidos com sucesso no sono das crianças (Spencer, Moran, Lee, & Talbert, 1990),  e ajudando alguns pais a conseguirem dormir melhor (Lee & Gay, 2011).

O terceiro fator, movimento, também era abundante no útero, como bebê em uma bolsa macia e líquida que era balançada regularmente. Você se lembra de como o bebê costumava estar sempre acordado no útero quando você estava descansando? É porque ele ou ela estava dormindo enquanto você se movimentava. Pais modernos nas culturas ocidentais, frequentemente optam por um passeio de carro para fazer o bebê adormecer. O embalo do carro, junto ao conforto da cadeirinha leva o bebê a um estado de sonolência, o que permite que durmam enquanto os pais dirigem dando voltas sem destino. Contudo, esse mesmo sono induzido pelo movimento pode ser alcançado com o uso de um carrinho de bebê, dando ao papai ou mamãe a possibilidade de andar por aí, ou sair para uma caminhada ou corrida. Possivelmente a melhor opção, o uso de carregadores de bebês promovem movimento, toque e som, tudo ao mesmo tempo enquanto o cuidador ainda consegue fazer uma caminhada ou tarefas simples do dia-a-dia. “Vestir-se com o bebê” (sling, mei-tai, canguru, etc) pode ser a melhor forma de reproduzir um “útero externo” para desenvolver o corpo e cérebro do bebê em níveis ótimos (Narvaez et al., 2013).

O ponto principal, no entanto, é que é normal o fato dos bebês preferirem dormir em contato com outros ao invés do lugar que muitas pessoas consideram o local “ideal” para dormirem. Apesar dos adultos a preferirem, a cama em um quarto silencioso não é necessariamente o ideal para as sonecas dos bebês. Para um resumo em inglês do comportamento durante as sonecas, e como ter sonecas seguras enquanto usa um carregador de bebês, clique aqui e veja um informativo da ISIS (Infant Sleep Information Source).

***

Resumo final

Ao longo desses três posts, esperamos ter deixado claro que frequentemente os pais percebem como problemáticos os padrões de sono dos filhos que precisam ser “consertados”, quando na verdade são completamente normais e apropriados ao desenvolvimento. Conhecemos o fato de que várias famílias ainda veem o sono dos bebês e crianças como um problema, e por isso estamos concentrando nossos textos na questão de como ajudá-los de forma gentil a dormir. O que esperamos que os pais levem para suas vidas dessa série de textos é (a) um entendimento melhor dos vários comportamentos que constituem o que é “normal” quando se trata do sono dos nossos filhos, e (b) que se tal comportamento não estiver sendo um problema para sua família, podem ficar certos de que a criança não está sofrendo com esses comportamentos perfeitamente normais de sono. Ao invés de seguir o conselho de um certo especialista, entenda o que é necessário para manter o bebê seguro enquanto dorme e crie um ambiente de sono ao redor desses comportamentos de segurança.. e então, faça o que funciona melhor para seu filho. Deixe que ele ou ela seja seu guia.

Link para o original em Inglês: What is normal infant sleep? Part IIIhttp://evolutionaryparenting.com/what-is-normal-infant-sleep-part-iii/

Link para a tradução da Parte 1

https://www.facebook.com/notes/solu%C3%A7%C3%B5es-para-noites-sem-choro/o-que-%C3%A9-sono-normal-de-crian%C3%A7a-parte-1/563794936978253

Link para a tradução da Parte 2

https://www.facebook.com/notes/solu%C3%A7%C3%B5es-para-noites-sem-choro/o-que-%C3%A9-sono-normal-de-crian%C3%A7a-parte-2/563810836976663

Referências

Anders, T.F., Halpern, L.F., & Hua, J. (1992).  Sleeping through the night: a developmental perspective.  Pediatrics, 90, 554-560.

Barajas, R.G., Martin, A., Brooks-Gunn, J., & Hale, L. (2011).  Mother-child bed-sharing in toddlerhood and cognitive and behavioral outcomes.  Pediatrics, 128, e339-e347.

Cassels, T.G.  (2013).  ADHD, sleep problems, and bed sharing: future considerations.  The American Journal of Family Therapy, 41, 13-25.

Delgado, P.L. (2006). Monoamine depletion studies: Implications for antidepressant discontinuation syndrome. Journal of Clinical Psychiatry, 67(4), 22-26.

Goldman, A. S. (1993). The immune system of human milk: Antimicrobial anti-inflammatory and immunomodulating properties. Pediatric Infectious Disease Journal, 12(8), 664-671.

Hibberd, C.M.; Brooke, O.G.; Carter, N.D.; Haug, M; Harzer, G. (1981). Variation in the composition of breast milk during the first 5 weeks of lactation: implications for the feeding of preterm infants. Arch. Dis. Child., 57:658-62.

Lee, K.A. & Gay, C.L. (2011). Can modifications to the bedroom environment improve the sleep of new parents?  Two randomized control trials.  Research in Nursing and Health, 34,7-19.

Lien, E.L. (2003). Infant formulas with increased concentrations of α-lactalbumin. American Journal of Clinical Nutrition, 77(6), 1555S-1558S.

Meltzer, L.J. & Mindell, J.A. (2006).  Sleep and sleep disorders in children and adolescents. Psychiatric Clinics of North America, 29, 1059-1076.

Messmer R, Miller LD, Yu CM.  The relationship between parent-infant bed sharing and marital satisfaction for mothers of infants.  Family Relations 2012; 61: 798-810.

Mindell, J. A., Sadeh, A., Wiegand, B., How, T. H., & Goh, D. Y. T. (2010). Cross-cultural differences in infant and toddler sleep.  Sleep Medicine, 11, 274-280.

Mosko, S., Richard, C., & McKenna, J.  (1997).  Infant arousals during mother-infant bed sharing: implications for infant sleep and sudden infant death syndrome.  Pediatrics, 100,841-849.

Narvaez, D., Panksepp, J., Schore, A., & Gleason, T. (Eds.) (2013). Evolution, Early Experience and Human Development: From Research to Practice and Policy. New York: Oxford University Press.

Nelson, E.A.S. & Taylor, B.J.  (2001).  International child care practices study: infant sleeping environment.  Early Human Development, 62, 43-55.

Somer, E. (2009) Eat your way to happiness. New York: Harlequin.

Spencer, J.A., Moran, D.J., Lee, A., & Talbert, D. (1990).  White noise and sleep induction. Archives of Diseases in Childhood, 65, 135-137.

Trevathan, W.R. (2011). Human birth: An evolutionary perspective. New York: Aldine de Gruyter.

Uvnäs-Moberg, K. (2003).  The oxytocin factor: tapping the hormone of calm, love and healing. Cambridge, MA: Da Capo Press.

Welles-Nystrom, B. (2005).  Co-sleeping as a window into Swedish culture: considerations of gender and health care. Scandinavian Journal of Caring Science, 19, 354-360.

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